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MANUEL EVANGELISTA em entrevista

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     AA - Se não estamos enganados, “Histórias da Ribeira de Muge” é a sua primeira publicação. Dai para cá já foram editados seis novos títulos, e a julgar pelo ritmo, não vai ficar por aqui. O que o motiva, afinal?

     MA - É verdade. As “histórias” foi o meu primeiro livro, publicado em 2004. Surgiu depois de muito ter pesquisado junto das gentes da ribeira de Muge. Actividade que iniciei por necessidade académica no final dos anos 90. Publiquei agora o sétimo livro, em Dezembro de 2012.

 

Penso continuar até que tenha motivos para contar e cantar o meu povo, e que tenha saúde psicológica para tal. Nestes cinco anos que estive sem publicar, devido a problemas conhecidos, não estive parado, bem pelo contrário, pelo que, praticamente prontos a publicar tenho quatro livros de outras temáticas locais. Para já penso publicar, com data de 22 de Abril, os Contos do Rei Preto, pois é a data (1511) em que foram pedidos os primeiro escravos negros para o Paço da Ribeira de Muge. É a minha homenagem ao nosso Rei Preto.

O que me motiva é o aprofundamento e o registo da história e da cultura da minha terra e região da ribeira de Muge. Uma cultura que está abafada, que foi importante numa época histórica, e que naturalmente tende a ir desaparecendo.

Ao entender a riqueza cultural das gentes da ribeira de Muge, com características próprias, a qual, devido a um certo isolamento, mantém ainda algumas particularidades, como podia ficar parado? E também por ver como uma certa adulteração que campeia por aí, faz lei, e como continua ignorada a História e a Cultura desta minha terra, e região, que é do que quero tratar, e para a qual quero viver esta fase final da vida.

     AA - Parte da sua vida profissional foi ligado aos comboios e essa (con)vivência deu-lhe, naturalmente, argumentos para abordar o tema com alguma autoridade, facto que explorou na sua anterior publicação. Onde encontra os argumentos para falar das gentes, em particular dos que (con)vivem no lugar de Paço dos Negros?

     MA - É verdade, fiz a minha carreira profissional na CP, de revisor a inspector-chefe.

Os argumentos, em qualquer dos temas que tenho abordado, vou buscá-los ouvindo e “subindo” ao povo de que faço parte. Apenas lhe dou voz: Tanto quando trato de temas sérios da vida do povo sofredor, como quando com alguma ironia e brejeirice, trato os mesmos temos populares, usando a pintura com que o mesmo povo os matiza quando os conta. Sempre no respeito por esse mesmo povo, pelos nossos velhos que são uma fonte inesgotável de sabedoria. Preciso é saber ouvi-los e entender o que dizem. Apenas me limito a fazer o que nos ensinou Leite de Vasconcelos: ...ao reunir esses fragmentos soltos da alma do nosso povo, muitas vezes me chamaram doido, por suporem frívolo o que a mim me parecia ouro…

     AA – O rigor das fontes consubstancia a verdade da História. Como interpreta a posição de um investigador local perante tal obrigação.

     MA - É verdade, o rigor das fontes é muito importante para mim que tenho uma formação científica, sociológica. Por isso pesquiso nas fontes documentais coevas, junto do povo gravo tudo, passo depois a formatos de som e escrita, para bem interiorizar e compreender cada tema, e depois permitir-me fazer uma categorização temática. Nas conversas que tenho (pouco têm de entrevista), tenho sempre o cuidado de ganhar a sua confiança, de nunca mostrar enfado perante um interlocutor, pois frequentemente era (sou) eu que não compreendia um tema, que mais tarde se vinha a revelar uma pérola preciosa.

Sou um “escrevinhador” livre, a pesquisa, o registo e a publicação devem obedecer sempre à verdade histórica, ainda que possam contender com interesses instalados. A pesquisa e registo, mesmo de temas que nos são mais ou menos familiares, não impede que os tratemos cientificamente, por exemplo, temas que tem muito de inverosimilhança, como as lendas, os contos, algumas histórias, devem obedecer sempre, com rigor, à imaginação do povo que as vive. Só assim será científica.

 

Os administradores do Autor Al agradecem ao Manuel Evangelista estas palavras ditas com prazer que respondo à entrevista escrita do AUTOR AL)

Almeirim – janeiro de 2013

 

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