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RELÓGIO DO TEMPO

Relógio do tempo

 

Quando o relógio do tempo parar, 
levarão o meu corpo sem vida,
tatuado de cicatrizes,
de momentos felizes, sem igual, 
povoado de emoções, sem conta, 
vividas pelo caminho, 
pela estrada percorrida, 
neste ou naquele lugar.

Quando o relógio do tempo parar, 
haverá o último sopro de vida,
um último desejo
simples, mas merecido: um beijo teu.
Sei que assim será.
Alguém me contou.
Alguém me prometeu.

Quando o relógio do tempo parar,
entre poucos, ficarás tu,
o teu rosto,
a tua voz, 
o teu sorriso, 
o teu cheiro, 
o teu sabor,
até o tempo parar,
enquanto o relógio rodar...


Emília Alves (27 de novembro | 2014)

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Avaliação: / 5
FracoBom 

não estou a escrever nada. devia mas não estou. diluo o que encontro pendurado em silêncios, tão bons que não têm tempo, em papéis amarrotados que aqui e ali deixo, bilhetinhos em bolsos que um dia os encontrarão - e se perguntarão, talvez: o que é isto? fumas-te até ao filtro e são estas as cinzas que nos mostras? é esta a tua tosse de escritor, o teu melhor catarro, aquele que faz as cabeças não virarem-se para olhar o doente mas debruçarem-se para ler minúcias da doença? oh… cura-te! escreve-te, soa, grita se for caso dum grito ou murmura quando nem as folhas da calçada devem estremecer se caminhas nu, como quando se escreve de escrever grande. tu sabes.... não lês os outros? então? sabes que não é tudo igual, que quando gatinham dum peito as cerejas roubadas sabem a céus, as palavras ganham desenhos e torna-se tão real como nos silêncios em que nos pensamos sem fim, sem fim, um sem fim daqueles que nunca acaba escrito (todos os temos). e nasce, é mais legível que se desenhado na mais bela prancheta e segundo diz o melhor estilo. abatem-se árvores para imprimi-lo.

 

Poema de CARLOS GIL #2

Avaliação: / 4
FracoBom 
EU
 
medos. enformam-me medos
e tanto que finjo quando os olho e lhes digo: ó sonhos! ó maravilhas!…
 
medo? medo até de fugir.
como num filme ou num romance se foge
num azul, numa nuvem, em duas linhas
acreditando que tudo cabe num peito
(os medos cabem na mão).
 
e minto. e sonho. e busco a coragem que me culpa
num peito-feito de mentiras.
sorrisos escritos. falas doces. horizontes de luxo.
em rodapé: nuvens ínvias.
 
e sem medo.
são os meus sonhos, braçadas no meu mar.
aleluias nos meus dias.
a mágica antes da noite.
 
eu nunca sonho. isto é:
eu nunca sonho quando adormeço.
dizem que não nos lembramos dos sonhos que temos quando adormecidos
mas que sonhamos sempre. sempre.
o sono e o sonho dão as mãos, dizem,
são bons amigos e nunca se esquecem um do outro.
 
eu? eu nunca sonho.
eu lembrar-me-ia se os tivesse.
tenho tantos acordado!
e, acaso os tivesse, adormecido, porque é que não me lembraria?
porquê gritaria? porquê me revoltaria?
 
(eu disse: os meus sonhos são o medo.
um disfarce, uma roupa que visto,
agasalho, pintura,
um duplo que não existe)
 
: durante a noite, vão de vida,
- que dizem onírica, riquíssima, mas dela não me lembro de nada,
eu tremo.
choro.
até grito.
o meu corpo tem convulsões. grita.
acho que também chora
mas quando a manhã me acorda
bem procuro nos lençóis (mas nunca encontro)
marcas dos sonhos ou das lágrimas, um qualquer sémen de dor:
os gritos nocturnos não ecoam quando o dia nasce.

sonhos? bah…
 
eu não sonho: grito.
não sorrio: tremo, tremelico.
 
e durmo. dormito no medo de acordar.
 
depois? volta tudo. tudo.
o medo abriga-se, mau diurno, e reinicio-me no fantasiar.
 
a sonhar.
vidas.
sorrisos.
nuvens sem medos e gritos
e tão, tão bonito, cuidado, credível
como não acreditar?
«amanhã! amanhã é que é!...»

e acaba-se o chorar.
o tremer.
o longo dormitar.

os dias assim são longos.
maiores que as noites (delas nada recordo).
gritos, choros, tremores,
sei-os em segunda mão. eu?
eu durmo.
eu durmo.
e da noite nada sei ou quero saber
(eu durmo, eu durmo,
e tenho um truque para quando acordar.)
 
e, se me apetece chorar
se desperto
se acordo
se
lavo a cara e minto,
e
e
e
 
eu disse: enformam-me medos.
 
medos.
por isso aldrabo sonhos, minto, faço versos
e esmero-me a fantasiar.

Poema de Carlos Gil

(originalmente publicado em nova-voz.blogspot.com)

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A MINHA RUA

Avaliação: / 1
FracoBom 

A minha rua não se escreve. Tem flores e árvores, carros estacionados em espinha, um banco que é meu e só meu (e ralho quando as velhas dele fazem sala nestes serões), tem pássaros que me acordam dizendo-me que a aurora espreita, tem o silêncio do lá vai um e a gritaria dos putos que jogam à bola no quintal da escola, asneirentos nas exclamações que, devem acreditá-lo, os farão mais crescidos e sedutores às gaiatas que lhes rondam os esforços daqueles e tantos outros golos lindos das suas juvenis ambições. Por vezes sinto que aqui se vivem todos os mistérios do mundo, que na minha rua reside um micro cosmos da sociedade e da natureza, e até acho que de mim.

 
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